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Depois da Eficiência Energética, o desafio é medir o carbono de todo o edifício



                      Depois da Eficiência Energética, o desafio é medir o carbono de todo o edifício
Semana da Reabilitação Urbana do Porto, 3 de Novembro 2026.

 A construção enfrenta uma nova etapa na transição energética. Depois de anos em que a eficiência dos edifícios foi sobretudo avaliada através do seu consumo de energia, o foco começa a alargar-se ao carbono incorporado nos materiais, aos processos construtivos e ao impacto de todo o ciclo de vida. Medir estas emissões, de forma consistente e comparável, será cada vez mais determinante para orientar decisões de projeto, investimento e construção.

Foi este o ponto de partida da sessão «Construir com menos carbono – Materiais, inovação e competitividade», integrada na 14.ª Semana da Reabilitação Urbana do Porto, que reuniu representantes da indústria, da academia e das entidades do setor para discutir os desafios e as oportunidades da descarbonização.

Na mensagem de boas-vindas, Nelson Lage, Presidente do Conselho de Administração da ADENE, sublinhou que uma parte significativa do impacto ambiental da construção está associada aos materiais utilizados. Defendeu, por isso, a necessidade de repensar a forma como se constrói, mas também de valorizar a reabilitação, lembrando que a maioria dos edifícios que existirão em 2050 já está construída. A capacidade de tornar esse património mais eficiente e resiliente será, assim, determinante para a transformação das cidades.

Do consumo energético ao carbono incorporado

Na apresentação «As novas diretivas europeias sobre a medição de carbono nos edifícios», Rui Fragoso, Diretor de Edifícios e Eficiência de Recursos da ADENE, enquadrou a dimensão do desafio climático e o peso do ambiente construído. A nível global, os edifícios e a construção representam cerca de 32% do consumo de energia e 34% das emissões de CO₂. Na União Europeia, aproximadamente metade dos materiais extraídos é destinada ao ambiente construído, enquanto a construção e a demolição representam mais de 35% dos resíduos gerados.

Em Portugal, os edifícios correspondem a cerca de 32% do consumo de energia final. Mas a análise do seu desempenho não pode continuar limitada à energia utilizada durante a fase de exploração. A produção dos materiais, o seu transporte, os trabalhos de construção, a manutenção e o fim de vida também têm uma pegada ambiental que importa contabilizar.

É neste contexto que ganha relevância o conceito de Potencial de Aquecimento Global (PAG), ou Global Warming Potential, aplicado a todo o ciclo de vida do edifício. A metodologia considera as emissões associadas à produção dos materiais, às fases de transporte e construção, à utilização e manutenção, ao consumo de energia e ao fim de vida. Inclui ainda uma categoria adicional, relativa a benefícios ou cargas para além dos limites do edifício.

Segundo os dados apresentados pela ADENE, o carbono incorporado nos materiais e nos processos construtivos pode representar até metade das emissões ao longo do ciclo de vida de um edifício. Uma dimensão que ganha particular importância à medida que os edifícios novos se tornam energeticamente mais eficientes e o peso relativo das emissões associadas à sua construção aumenta.

A evolução regulamentar europeia vai acelerar esta mudança. A Diretiva relativa ao Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), revista em 2024, estabelece a introdução progressiva da avaliação do PAG dos edifícios novos. A partir de 2028, a obrigação de reporte abrangerá os edifícios novos com mais de 1.000 m², passando a aplicar-se a todos os edifícios novos a partir de 2030. A diretiva prevê também a evolução para edifícios com emissões nulas, com metas faseadas para os próximos anos.

A implementação dependerá, contudo, da definição de metodologias nacionais compatíveis com o enquadramento europeu. Para Rui Fragoso, medir será o primeiro passo para reduzir. À semelhança do que aconteceu com a eficiência energética, o setor terá de passar a trabalhar com indicadores que permitam comparar soluções e avaliar o impacto das decisões tomadas desde a fase de projeto.

A qualidade dos dados será, por isso, fundamental. As declarações ambientais de produto (DAP) permitem conhecer o impacto ambiental de materiais e componentes com base em informação específica dos fabricantes. Quando estes dados não existem, é necessário recorrer a médias setoriais, informação genérica nacional ou valores conservadores predefinidos. Quanto mais rigorosa e específica for a informação disponível, maior será a capacidade de avaliar o desempenho real dos edifícios e de distinguir soluções.

A indústria já tem soluções, mas precisa de escala

A transição não depende apenas de novas regras. Exige também inovação industrial, capacidade de execução e maior integração da sustentabilidade nas decisões de projeto.

Pedro Santos, Diretor Técnico da Reynaers Aluminium, destacou o contributo que soluções de alumínio com menor pegada de carbono podem ter na redução do impacto dos edifícios. Sublinhou ainda a importância da envolvente na eficiência operacional e do recurso a ferramentas digitais que acompanhem as diferentes fases, desde a conceção até à instalação e controlo das soluções. As DAP são instrumentos relevantes para conhecer o impacto dos produtos, embora não sejam, por si só, garantia do desempenho ambiental do edifício no seu conjunto. A avaliação terá de considerar a solução efetivamente aplicada e o seu contributo para o resultado final.

Por seu lado, Lucas Lopes, Technical Support Specialist da Saint-Gobain Solutions Portugal, apresentou exemplos de soluções que procuram reduzir o impacto dos materiais e dos processos de construção. Entre eles, destacou o Webercol Flex Lev, cuja aplicação através de camião-bomba permite reduzir o transporte de embalagens e paletes, bem como os resíduos associados. Referiu ainda alternativas mais leves à alvenaria tradicional, que podem diminuir as necessidades logísticas e os tempos de execução, e o vidro ORAÉ, produzido com uma elevada incorporação de material reciclado. A utilização de vidro reciclado permite reduzir as temperaturas necessárias no processo de produção, mantendo as características de desempenho do produto.

Estas soluções enquadram-se numa estratégia mais ampla de redução das emissões. A Saint-Gobain estabeleceu como objetivo reduzir em 80% as suas emissões até 2050, face a 2017. O desafio, como sintetizou Lucas Lopes, passa por «fazer mais com menos», conciliando desempenho, eficiência de recursos e competitividade.

Sem dados comparáveis, medir continua a ser difícil

Se a indústria começa a disponibilizar soluções com menor impacto, a sua avaliação continua condicionada pela escassez de informação e pela falta de critérios comuns. Esta foi uma das principais questões levantadas no debate moderado por Alexandre Lima, Diretor da Iberian Property.

Ricardo Mateus, Diretor do eco.lab e Professor Associado do Departamento de Engenharia Civil da Universidade do Minho, chamou a atenção para a reduzida cobertura da informação disponível em Portugal. A base nacional de DAP inclui apenas 109 produtos, um número ainda limitado face à diversidade de materiais utilizados na construção. A elaboração destas declarações não é obrigatória, pelo que muitos fabricantes ainda não investiram na sua produção.

A ausência de orientações nacionais harmonizadas constitui outro obstáculo. Sem metodologias comuns, duas equipas técnicas podem avaliar o mesmo edifício e chegar a resultados diferentes. Para Ricardo Mateus, é urgente desenvolver uma base de dados nacional e criar condições para que a avaliação do carbono incorporado seja feita com critérios consistentes e informação representativa do mercado português.

Cláudia Guerreiro, Técnica Especialista da Direção de Edifícios e Eficiência de Recursos da ADENE, explicou que a transposição da diretiva europeia exigirá um enquadramento regulamentar nacional, complementado por legislação e instrumentos de aplicação. A criação de uma base de dados será igualmente importante para apoiar o setor na adoção das novas exigências. A seu ver, o PAG poderá vir a assumir um papel de referência semelhante ao que hoje desempenham o custo de construção ou a classe energética dos edifícios.

João Ferreira Gomes, Presidente da ANFAJE, destacou a transformação da indústria das janelas e fachadas nos últimos anos. Desde 2013, o setor tem evoluído através da inovação, da industrialização e da digitalização, encontrando-se hoje tecnologicamente mais preparado e com capacidade para competir nos mercados internacionais. Uma evolução que demonstra que a modernização industrial pode acompanhar as exigências crescentes de desempenho e sustentabilidade.

Também António Baio Dias, Presidente do Cluster Habitat Sustentável, defendeu que as empresas devem começar por conhecer o impacto dos seus próprios processos. A avaliação do ciclo de vida dos produtos e o cálculo da respetiva pegada de carbono permitem identificar as fases de maior consumo energético e perceber onde é possível intervir. A elaboração de DAP e a utilização de indicadores simples e relevantes serão, depois, essenciais para comunicar melhor o desempenho ambiental dos produtos aos clientes.

A ambição climática também tem de ser economicamente viável

A aplicação destas soluções levanta, porém, uma questão incontornável: quem está disposto a pagar pela redução de carbono? Diogo Abecasis, Co-CEO do MAP Group, partilhou a experiência da empresa na avaliação do carbono incorporado em projetos de escritórios, residenciais e de hotelaria, apontando a distância que ainda pode existir entre a ambição ambiental dos promotores e a disponibilidade dos utilizadores para suportar custos adicionais, notando-se ainda uma diferença entre ter clientes corporativos ou particulares.

Num mercado marcado pela necessidade urgente de aumentar a oferta de habitação, a sustentabilidade tem de ser conciliada com a capacidade de produzir edifícios a preços competitivos. A definição de metas ambiciosas para edifícios com emissões nulas exige, por isso, condições económicas que permitam transformar os objetivos regulamentares em soluções efetivamente adotadas pelo mercado.

A discussão estendeu-se também à reutilização de materiais e à economia circular. Ricardo Mateus alertou que a reciclagem nem sempre representa a opção ambientalmente mais favorável. O impacto dos processos de tratamento e transporte pode, em determinadas circunstâncias, superar o de utilizar materiais novos. A reutilização de resíduos de demolição como agregados, por exemplo, pode fazer sentido quando as distâncias de transporte são reduzidas, mas exige uma avaliação caso a caso.

Na reflexão final, os participantes convergiram na necessidade de preparar os edifícios para novas utilizações e para a evolução das exigências ao longo do tempo. Cláudia Guerreiro destacou a importância da adaptabilidade; João Ferreira Gomes defendeu a renovação das tipologias e a atualização do Regulamento Geral das Edificações Urbanas; António Baio Dias considerou que a resposta passará tanto pela reabilitação como pela construção nova, com a industrialização a contribuir para reduzir prazos; e Diogo Abecasis apontou a industrialização e a pré-fabricação como caminhos incontornáveis para o futuro do setor.

A descarbonização da construção não será, assim, alcançada apenas através da substituição de materiais ou da introdução de novas tecnologias. Exige informação fiável, metodologias comparáveis, processos industriais mais eficientes e um enquadramento económico que permita escalar as soluções. Depois de aprender a medir a energia que os edifícios consomem, o setor terá agora de aprender a medir o carbono que incorporam. E transformar essa medição numa ferramenta concreta de decisão.

A agenda completa dos três dias está disponível online. Faça a sua inscrição gratuita no site da Semana da Reabilitação Urbana do Porto.

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