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CASAS INTELIGENTES: A TECNOLOGIA SÓ CRIA VALOR QUANDO RESPONDE ÀS NECESSIDADES DE QUEM AS HABITA



                      CASAS INTELIGENTES: A TECNOLOGIA SÓ CRIA VALOR QUANDO RESPONDE ÀS NECESSIDADES DE QUEM AS HABITA
Semana da Reabilitação Urbana do Porto, 3 de Novembro 2026.

A inteligência artificial está a acelerar a transformação da forma como trabalhamos, consumimos e nos relacionamos com a tecnologia. A habitação não ficará à margem desta mudança. Das soluções de controlo remoto à gestão energética, da segurança à automação de tarefas quotidianas, as casas inteligentes prometem uma experiência residencial cada vez mais conectada. Mas como integrar estas ferramentas em edifícios concebidos para durar várias décadas? E como garantir que a tecnologia acrescenta valor real, em vez de se tornar apenas mais um argumento comercial?

Estas foram algumas das questões em debate na sessão “Edifícios Inteligentes – O impacto da IA nas nossas casas”, integrada na Semana da Reabilitação Urbana do Porto. A sessão contou com as intervenções de Eduardo Carqueja, CEO da AppGeneration, e Cláudia Santos, Head of NOS Smart Home – Real Estate Strategy & Partnerships, seguindo-se uma mesa-redonda moderada por Ricardo Luz, Vice-Presidente da EBAN – European Business Angels Network.

A inteligência artificial vai transformar a forma como habitamos

Na sua intervenção, Eduardo Carqueja começou por sublinhar a velocidade a que a inteligência artificial está a alterar os processos de trabalho. A experiência da AppGeneration, empresa tecnológica que dirige, permite-lhe acompanhar esta transformação de perto. “Somos um canário na mina”, afirmou, explicando que o impacto da IA se faz sentir imediatamente na organização interna, nos métodos de trabalho e na forma como as equipas executam tarefas.

A capacidade de responder a mensagens complexas, automatizar processos e colocar ferramentas de inteligência artificial ao alcance de todos está a alterar a relação entre pessoas e tecnologia. Para Carqueja, esta mudança terá, contudo, ritmos diferentes consoante os setores, sobretudo quando estão envolvidos grandes organizações e entidades públicas.

O imobiliário poderá estar entre os primeiros setores a sentir os efeitos mais profundos desta transformação. O responsável apontou também para o desenvolvimento da robótica e dos humanoides, antecipando aplicações que poderão vir a alterar a forma como os edifícios são construídos, utilizados e geridos.

Na sua perspetiva, a tecnologia poderá inclusivamente contribuir para responder a alguns dos desafios estruturais do setor, incluindo a crise da habitação. Mas deixou um alerta quanto à posição europeia nesta corrida tecnológica, considerando que a Europa está a perder terreno face a outras geografias.

A casa inteligente já vai muito além de controlar luzes e estores

A evolução da tecnologia doméstica foi o ponto de partida da apresentação de Cláudia Santos. A responsável da NOS Smart Home defendeu que uma casa inteligente não se resume a controlar remotamente a iluminação, os estores ou a climatização. O verdadeiro valor está naquilo que estas funcionalidades proporcionam a quem habita o imóvel: mais conforto, segurança, conveniência e tranquilidade.

A questão, explicou, deve começar ainda na fase de conceção dos empreendimentos: as casas que estão hoje em projeto ou construção estarão preparadas para responder às expectativas dos seus moradores daqui a 10 ou 20 anos?

A conectividade, a mobilidade elétrica e a eficiência energética são exemplos de características que ganharam relevância na escolha e conceção de uma casa ao longo da última década. A casa inteligente poderá seguir o mesmo caminho, passando de elemento diferenciador a expectativa básica dos compradores.

Cláudia Santos recorreu a exemplos de tecnologias que já fazem parte das rotinas dos portugueses, como o MB WAY, o GPS e a Via Verde. A sua integração foi bem-sucedida porque simplificou tarefas quotidianas ao ponto de os utilizadores deixarem de pensar na tecnologia que está por detrás delas. É essa mesma lógica que deverá orientar a evolução da habitação inteligente.

Entre as funcionalidades apresentadas estão a possibilidade de verificar o estado do alarme à distância, acompanhar a atividade dos equipamentos em casa, receber familiares ou falar com estafetas através do videoporteiro, vigiar animais, preparar a temperatura antes de chegar, simular presença durante as férias ou interromper o abastecimento de água em caso de fuga.

A responsável defendeu ainda que estas soluções não devem ficar circunscritas ao segmento de luxo. A democratização da tecnologia exige propostas modulares, capazes de adaptar funcionalidades e investimento aos diferentes posicionamentos dos empreendimentos, desde o segmento médio-baixo ao premium.

Para que essa expansão aconteça, identificou desafios dos dois lados do mercado. Os moradores precisam de reconhecer a utilidade da solução e confiar na sua simplicidade de utilização. Para os promotores, são essenciais a clareza sobre o investimento, a integração com o projeto e a obra e a garantia de continuidade depois da venda.

Neste último ponto, a NOS Smart Home propõe acompanhar o processo desde a definição da solução até à utilização, incluindo apoio às equipas comerciais, formação dos compradores, configuração inicial e assistência pós-venda. A tecnologia, concluiu, só se torna verdadeiramente útil quando é acompanhada ao longo do tempo.

A tecnologia deve complementar a proposta de valor do imóvel

Na mesa-redonda moderada por Ricardo Luz, os participantes convergiram na ideia de que a inovação tecnológica deve ser avaliada pela sua utilidade concreta, e não pelo entusiasmo que gera. Miguel Morgado, Head of Residential Development da Dils, alertou para o risco de confundir a transformação tecnológica com o simples acompanhamento de tendências.

“Temos de ter cuidado com o hype”, afirmou, defendendo que a questão central deve ser perceber se a tecnologia responde efetivamente às necessidades das pessoas. A sua integração deve fazer parte de uma proposta de valor mais ampla para o imóvel, complementando a experiência residencial e contribuindo para a forma como o produto é apresentado ao mercado.

Morgado acrescentou que a tecnologia pode ter um papel relevante muito antes da ocupação da casa, nomeadamente no próprio processo de compra, ajudando a simplificar procedimentos e burocracias. Mais do que introduzir ferramentas isoladas, o setor deve aproveitar as soluções já disponíveis para repensar os seus processos internos, numa altura em que o comportamento dos consumidores também está a mudar.

Diogo Nunes, Managing Partner da Kokyu Properties, confirmou que a tecnologia já está a ser incorporada em vários empreendimentos de construção nova promovidos pela empresa, bem como em projetos de reabilitação, com uma experiência que classificou como positiva.

Ainda assim, sublinhou que a tecnologia é apenas uma das componentes de um projeto e não pode tornar-se um obstáculo à sua concretização. A integração deve começar na própria conceção do edifício, em articulação com o trabalho dos arquitetos, e ser pensada em função da longevidade do imóvel.

Edifícios para 50 anos exigem tecnologia preparada para evoluir

A durabilidade dos edifícios foi também uma das principais preocupações levantadas por Paula Fernandes, CEO da RAR Imobiliária. A responsável considerou que a inteligência artificial está atualmente muito presente no discurso público, mas alertou para a diferença entre a propaganda em torno da inovação e a sua aplicação efetiva.

Qualquer solução introduzida num empreendimento destinado a durar 50 ou 100 anos tem de permitir evolução e atualização. Caso contrário, aquilo que hoje é apresentado como uma vantagem poderá rapidamente tornar-se obsoleto ou difícil de utilizar.

Paula Fernandes chamou ainda a atenção para os ciclos longos de desenvolvimento imobiliário. Entre a conceção inicial de um projeto e a sua entrega ao cliente podem decorrer seis ou sete anos, período durante o qual a tecnologia e as expectativas dos compradores podem mudar significativamente.

A facilidade de utilização é, por isso, determinante. “Não podemos instalar mil coisas que depois são tão difíceis de usar que, passado um mês, o cliente está a perguntar ao ChatGPT como as utilizar”, observou.

A responsável referiu igualmente a existência de diferentes perfis de compradores, desde os que pretendem acompanhar e controlar todos os equipamentos da casa até aos que são mais resistentes à tecnologia. A resposta dos promotores deve passar por soluções flexíveis, capazes de acomodar essas diferenças sem impor funcionalidades desnecessárias.

A preocupação com a segurança digital, nomeadamente o risco de ataques informáticos, surgiu também no debate, embora sem uma análise técnica aprofundada. A questão reforça a importância de garantir que a integração tecnológica é acompanhada por soluções fiáveis e por uma gestão adequada ao longo da vida do edifício.

A corrida tecnológica coloca novos desafios ao imobiliário

A velocidade da evolução tecnológica, em particular na China, foi outro dos temas levantados por Ricardo Luz. O Vice-Presidente da EBAN destacou o desenvolvimento da robótica e a crescente capacidade dos humanoides para aprender e desempenhar diferentes funções, antecipando que algumas destas aplicações poderão tornar-se realidade antes de 2030.

Eduardo Carqueja relacionou esta evolução com os desafios demográficos chineses e com a necessidade de encontrar soluções para compensar a redução futura da população ativa. Na sua perspetiva, o que está a acontecer naquele mercado poderá influenciar a evolução tecnológica à escala global, pelo que as entidades públicas e as empresas europeias deverão acompanhar mais atentamente estas transformações.

O responsável da AppGeneration reconheceu, contudo, que a inteligência artificial terá consequências profundas no mercado de trabalho e na organização da sociedade. Comparou a mudança à introdução da eletricidade ou da internet, tecnologias que exigiram períodos de adaptação e transformaram profissões inteiras.

A criação de sistemas cada vez mais inteligentes levanta questões sobre o futuro de muitas funções profissionais, mas Carqueja considera que a dimensão da transformação torna improvável qualquer retrocesso. “O génio saiu da lâmpada”, afirmou, alertando que as empresas que não começarem a adaptar-se poderão enfrentar dificuldades significativas no curto prazo.

Miguel Morgado partilhou uma perspetiva otimista sobre o potencial da IA, lembrando que as empresas têm hoje acesso a modelos e algoritmos semelhantes, mas que a diferença estará na forma como cada organização os utiliza. O desafio não consiste apenas em adquirir tecnologia, mas em repensar os processos, as competências e os modelos de negócio para tirar partido das ferramentas disponíveis.

A sessão terminou com uma ideia transversal às diferentes intervenções: a casa inteligente não será definida pelo número de dispositivos instalados, mas pela capacidade de integrar tecnologia útil, simples e evolutiva na experiência de habitar. Para os promotores, isso implica antecipar as necessidades dos futuros moradores desde a fase de projeto e assegurar que as soluções escolhidas continuam a fazer sentido muito depois da entrega do imóvel.

A agenda completa dos três dias está disponível online. Faça a sua inscrição gratuita no site da Semana da Reabilitação Urbana do Porto.

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