A reabilitação urbana mudou as cidades portuguesas nas últimas décadas, mas o próximo ciclo exige um novo olhar sobre o território. Habitação, materiais, conforto energético e mobilidade estiveram em debate na conferência “Planear e Reabilitar cidades – O próximo ciclo da regeneração urbana”, que decorreu a 4 de novembro, no último dia da 14.ª Semana da Reabilitação Urbana do Porto, na Antiga Fábrica de Conservas Vasco da Gama, em Matosinhos.
A sessão juntou arquitetos, indústria e fornecedores de soluções técnicas para refletir sobre que cidades estamos a construir e com que prioridades.
Prémio Nacional de Reabilitação Urbana abre inscrições para a 15.ª edição
A conferência abriu com o lançamento da edição de 2027 do Prémio Nacional de Reabilitação Urbana, apresentado por António Gil Machado, diretor da Vida Imobiliária. A 15.ª edição do prémio vai distinguir as intervenções de reabilitação urbana concluídas entre 1 de janeiro de 2025 e 31 de dezembro de 2026, desde que não tenham sido candidatas em edições anteriores.
O prémio avalia o contributo das intervenções para a qualificação das cidades e o seu impacto na comunidade, considerando também a aceitação pelo mercado, o valor social e a capacidade de induzir mudança no tecido urbano. Desde a primeira edição, em 2013, com 36 projetos de 11 concelhos, o número de candidaturas tem rondado as 80 por ano. Na última edição concorreram 80 projetos de 30 concelhos.
As candidaturas distribuem-se pelas categorias Impacto Social, Turístico, Comercial & Serviços, Residencial, Cidade do Porto, Cidade de Lisboa, Melhor Intervenção Inferior a 1000 m², Restauro, Sustentabilidade e Reabilitação Estrutural. Mantém-se também a distinção Mestres da Construção, que já premiou Humberto Sousa (2023), Nestor&Nestor (2024), Augusto Sousa (2025) e Rui Pedro Oliveira Simões (2026).
O júri é composto por Carlos Prata, Inês Lobo, João Carvalho das Neves, Manuel Duarte Pinheiro e Fernando Guedes de Oliveira. As inscrições de pré-candidatura abrem a 9 de novembro e encerram a 12 de março de 2027. A formalização das candidaturas e a entrega de dossiês decorrem entre 19 de março e 9 de abril de 2027. A cerimónia de entrega dos prémios está agendada para maio de 2027.
Os vencedores do Prémio Jovens Arquitectos 2026
A sessão foi moderada por Paulo Serôdio, curador do Prémio Jovens Arquitectos, que lembrou que o prémio chega aos cinco anos. Segundo o curador, as edições anteriores têm reunido trabalhos de grande qualidade do ponto de vista estético, construtivo e tecnológico. As inscrições para a próxima edição abrem a 15 de dezembro.
O primeiro lugar da edição de 2026 foi atribuído ex aequo a dois projetos, apresentados pelos seus autores.
Less Minhós de Almeida e Eduardo Arnaut, do Há atelier, apresentaram o CIC – Centro Interpretativo do Cereal, em Penela. O projeto converteu um antigo moinho num espaço sensorial e educativo, preservando e valorizando as estruturas com valor histórico como forma de transmitir o património cultural às gerações futuras.
Sofia Passos Santos, do So Studio, apresentou o Novo Pólo do Colégio Ribadouro, no centro do Porto. O colégio funciona em oito casas burguesas típicas do Porto, com acesso pela Rua de Santa Catarina, e o novo polo permite a sua expansão através do logradouro até uma nova frente na Rua das Doze Casas.
A intervenção teve dois momentos. Um edifício de habitação coletiva dos anos 60 não era compatível com os requisitos de um edifício escolar, por isso foi demolido e substituído por um novo edifício com a mesma volumetria, mas com menos um piso. Em duas frações do edifício adjacente, a estrutura existente foi mantida. Os dois espaços estão ligados por um recreio interior central, que funciona como elemento articulador do conjunto.
Reabilitar para lá dos centros históricos
No debate, Adriana Floret, vice-presidente do Conselho Diretivo Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos, defendeu que falar de reabilitação implica falar primeiro de habitação. “E não é só nos centros históricos, temos de ir aos bairros, às periferias”, sublinhou. A arquiteta alertou que a reabilitação “está muito parada” e que “há muita coisa para fazer”.
Sofia Passos Santos, arquiteta do So Studio, falou sobre o modo como a nova geração de arquitetos olha para esta vaga de reabilitação. Recordou que a profissão atravessou uma fase de grande instabilidade depois da crise financeira, que obrigou os jovens arquitetos a “fazer muito com muito pouco” e a olhar para as dificuldades como oportunidades. Para a arquiteta, o novo panorama passa muito pela reutilização: demolir menos, integrar elementos existentes ou reinventá-los. Acrescentou que a indústria pode explorar novos materiais com potencial criativo.
Do lado da indústria, João Serafim, coordenador técnico da Secil, destacou o potencial dos materiais cimentícios, nomeadamente os ativados e os coloridos, e o trabalho da empresa na incorporação de soluções para a descarbonização. Segundo o responsável, já é possível produzir o mesmo produto com menos emissões, mas tecnicamente é preciso ir mais longe. Apontou ainda a evolução da pré-fabricação como uma mudança para a qual o setor tem de se preparar.
Rui Oliveira, business developer da Robert Bosch Home Comfort, apontou o conforto energético como um dos temas centrais da reabilitação urbana. Explicou que integrar estes equipamentos em edifícios existentes é muitas vezes difícil, porque em alguns casos não existem áreas técnicas. Por isso, os equipamentos são cada vez mais compactos.
Custos, licenciamento e fiscalidade continuam a travar a reabilitação
Adriana Floret considerou que a redução do IVA para 6% na reabilitação, há muito esperada, “é pouco ainda”. A arquiteta lembrou que a última legislação excecional já terminou, o que dificulta a concretização de vários projetos. Com a construção e os terrenos ainda muito caros, outros investimentos de construção nova fora da cidade podem tornar-se mais atrativos. Por isso, defendeu que “só o IVA não é suficiente”.
Sobre as novas regras do RJUE, a representante da Ordem dos Arquitectos reconheceu que são um passo, mas considerou que não chegam. Defendeu que, antes de agilizar os licenciamentos, é preciso responsabilizar os municípios pelos atrasos nas respostas, porque não basta a lei fixar prazos. Criticou também o reforço da responsabilização dos técnicos através dos termos de responsabilidade, numa altura em que a legislação “não é objetiva”, e considerou que estes não resolvem o problema de base.
João Serafim defendeu que a resposta aos custos de construção passa também pelas novas metodologias. Explicou que o setor tem de equilibrar materiais muito caros, mão de obra insuficiente e falta de capacidade dos empreiteiros, e que é aí que a pré-fabricação pode ajudar. Deu o exemplo das argamassas, que antes só se faziam em obra. “A inovação tem de ser acessível para ser sustentável”, sublinhou, lembrando que a indústria de materiais só existe se houver construção e que tem de acompanhar a capacidade do mercado.
Rui Oliveira defendeu que os fornecedores de soluções técnicas devem ser envolvidos o mais cedo possível no processo. Só assim, explicou, é possível garantir desde a fase inicial as áreas técnicas necessárias, reduzir o espaço ocupado pelos equipamentos e controlar o ruído.
Uma cidade viva, e não uma cidade-museu
A olhar para o futuro, Sofia Passos Santos afirmou que não gostaria de ver o Porto transformado numa “cidade museu” daqui a 20 anos. A arquiteta defendeu que é preciso preservar a essência da cidade e apostar na cidade dos 15 minutos, com mobilidade suave, pensando na circulação, mas menos no automóvel.
O debate deixou claro que o próximo ciclo da regeneração urbana vai depender de reabilitar mais território, e não apenas os centros históricos. Vai depender também de condições económicas e regulatórias que tornem essa reabilitação viável.