A inteligência artificial e o Building Information Modelling (BIM) estão a abrir novas possibilidades para a arquitectura, a engenharia e a construção, desde a concepção dos projectos à execução em obra e à gestão dos edifícios. Mas, apesar do potencial de automatização, a tecnologia não dispensa o conhecimento técnico nem a capacidade de avaliar os resultados. Esta foi uma das principais ideias da conferência «BIM e Inteligência Artificial – O futuro já chegou à construção», integrada na 14.ª Semana da Reabilitação Urbana do Porto.
Na abertura, Cristina Cardoso, Vice-Presidente da Ordem dos Engenheiros Técnicos (OET), defendeu que a transformação tecnológica representa uma oportunidade para repensar a forma como o sector trabalha e cria valor. A responsável destacou o papel dos engenheiros na concepção, gestão e manutenção de edifícios e infraestruturas, sublinhando a importância da formação contínua para acompanhar a evolução das ferramentas e melhorar a colaboração entre profissionais. O objectivo, afirmou, deve ser uma construção cada vez mais digital e eficiente, assente no conhecimento e na responsabilidade.
A IA não substitui a validação técnica
Ana Rita Beire, Vice-Presidente do Conselho da Profissão da OET, chamou a atenção para uma das limitações fundamentais da inteligência artificial: a capacidade de apresentar respostas com o mesmo grau de confiança, independentemente de estarem certas ou erradas. Quando associada ao BIM, a IA pode beneficiar de informação estruturada e de dados concretos, reduzindo a dependência de respostas meramente probabilísticas. Ainda assim, a responsável considerou que a possibilidade de gerar autonomamente um projecto completo continua distante.
A mudança será também significativa ao nível das competências profissionais. Beire referiu que 39% das competências dos trabalhadores poderão mudar ou ficar desactualizadas até 2030, tornando a aprendizagem contínua indispensável. Na utilização destas ferramentas, a responsabilidade técnica continuará a caber às pessoas, que terão de verificar os resultados, proteger a confidencialidade da informação, actuar com transparência e conhecer as regras aplicáveis.
A experiência da A400 demonstra que algumas destas aplicações já ultrapassaram a fase experimental. Luís Sanhudo, Director Técnico de ID da empresa, apresentou exemplos de utilização de IA e BIM nos processos de engenharia, incluindo design generativo, desenvolvimento de gémeos digitais e geração automática de documentação. Através da plataforma A400 Flow, a empresa consegue automatizar a disposição de tubagens em projectos, desde apartamentos a edifícios completos, recorrendo a regras previamente definidas e a modelos de linguagem para apoiar a sua aplicação a diferentes projectos.
O engenheiro sublinhou, contudo, que a automatização não elimina a necessidade de intervenção técnica: cabe sempre ao engenheiro confirmar se as soluções geradas estão correctas. A ambição, explicou, não é substituir o trabalho dos profissionais, mas libertar tempo para que possam pensar, decidir e fazer melhor engenharia.

Do modelo digital à gestão do edifício
A utilização de modelos BIM ganha particular relevância quando acompanha o edifício ao longo de todo o seu ciclo de vida. Na mesa-redonda moderada por Cristina Cardoso, Rui Mendes, responsável pelo Departamento de Engenharia Mecânica da Schmitt + Sohn Elevadores, destacou a importância de integrar os equipamentos desde a fase de projecto e assegurar a consistência da informação nas diferentes etapas, incluindo as inspecções, vistorias e manutenção.
Os elevadores são equipamentos com um ciclo de vida longo e custos de manutenção significativos. Por isso, a empresa pretende disponibilizar elementos BIM aos projectistas e desenvolver soluções que permitam melhorar a gestão dos equipamentos ao longo do tempo. Mendes afirmou que a Schmitt + Sohn está a trabalhar com especialistas para acelerar esta evolução, considerando que as empresas se encontram actualmente na linha da frente da transformação.
Rui Gavina, professor no ISEP, IBUILT e VN2R, apontou também oportunidades na gestão de edifícios, onde a utilização de dados permite obter ganhos mais imediatos. Destacou o desenvolvimento de soluções open source e de ferramentas mais personalizadas, mas alertou para a necessidade de validar os resultados produzidos por métodos probabilísticos. Para o académico, o desafio passa por desenvolver espírito crítico, e não uma atitude de desconfiança perante a tecnologia.
A formação e a responsabilidade no centro do debate
A questão da responsabilidade profissional gerou diferentes perspectivas. Nuno Cruz, professor no ISEL, considerou que a evolução da inteligência artificial poderá vir a alterar profundamente a forma como esta é atribuída, à medida que os sistemas forem capazes de incorporar regras e procedimentos técnicos cada vez mais complexos. Cristina Cardoso contrapôs que a assinatura de um termo de responsabilidade dificilmente será transferida para uma máquina, defendendo que a validação e a decisão final continuarão a ser determinantes.
O ensino foi outra das preocupações levantadas. Cruz comparou a integração da IA com a evolução da utilização de calculadoras na formação em engenharia: ferramentas inicialmente vistas com reserva acabam por se tornar parte do trabalho quotidiano. O desafio actual, defendeu, é preparar alunos que já utilizam inteligência artificial e que terão de aprender a fazê-lo de forma consciente. Para isso, considera necessário repensar os modelos de ensino, com maior acompanhamento individual, embora reconheça as limitações de recursos das instituições.
Quanto à liderança desta transformação, os participantes apontaram para uma responsabilidade partilhada, embora com diferentes protagonistas. Rui Mendes considera que as empresas estão actualmente mais avançadas e que não haverá necessariamente um único líder. Rui Gavina atribuiu aos donos de obra um papel importante, por serem os principais interessados nos resultados, mas lembrou que são os técnicos que dominam os processos. Nuno Cruz apontou, por sua vez, para os profissionais da informática como protagonistas incontornáveis desta mudança.

A conferência terminou com uma ideia transversal: a tecnologia já está a alterar a forma como se projecta, constrói e gere o edificado. O ritmo da transformação dependerá, porém, da capacidade de aproximar empresas, academia e profissionais, sem perder de vista a qualidade técnica, a formação e a responsabilidade pelas decisões.