A industrialização da construção esteve em destaque no arranque da 14.ª Semana da Reabilitação Urbana do Porto, que decorre até 4 de novembro na Antiga Fábrica de Conservas Vasco da Gama, em Matosinhos. Na primeira sessão do programa, dedicada ao tema «Construção industrializada – Como ganhar escala e competitividade?», representantes de diferentes áreas do setor analisaram o potencial dos novos métodos construtivos para aumentar a produtividade, controlar custos e acelerar a resposta às necessidades de habitação.
A sessão começou com uma reflexão sobre o papel das empresas de projeto e consultoria na transformação do território, seguindo-se duas apresentações dedicadas à inovação nos materiais e à arquitetura no novo paradigma da construção industrializada. Uma mesa-redonda reuniu depois representantes da indústria, da construção, da promoção e da arquitetura, num debate sobre as condições necessárias para que estas soluções ganhem escala em Portugal.
Reforçar a capacidade das empresas de projeto
Na abertura, António Monteiro, membro da Direção da APPC – Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores, destacou a importância de reforçar a capacidade de intervenção das empresas de arquitetura, engenharia e consultoria num setor cada vez mais exigente e multidisciplinar.
Fundada em 1975, a APPC reúne atualmente mais de 150 empresas, com um volume de negócios agregado superior a 500 milhões de euros. A associação procura alargar a sua representação a outras áreas, nomeadamente arquitetura, ambiente, economia e gestão, e contribuir para uma maior valorização do trabalho de projeto, da gestão de empreendimentos e da fiscalização.
Um dos desafios identificados é a dimensão das empresas portuguesas, em particular no Norte, onde existe uma menor concentração de estruturas com capacidade para assumir projetos de maior escala. Para António Monteiro, é fundamental que as empresas se organizem, reforcem a sua capacidade de trabalho conjunto e consigam alcançar níveis de rentabilidade mais proporcionais à responsabilidade e à especialização exigidas.
A contratação pública foi também apontada como uma área que necessita de maior reflexão. A escolha baseada exclusivamente no preço mais baixo pode comprometer a qualificação dos projetos e a qualidade da obra. A valorização da experiência, da capacidade técnica e da coordenação das diferentes especialidades deve, por isso, assumir um papel central desde as fases iniciais do processo construtivo.
Materiais e processos preparados para novos ritmos
A inovação nos materiais foi o ponto de partida da apresentação de Paulo Portugal, diretor técnico da MAPEI, que defendeu a necessidade de adaptar as soluções técnicas às exigências da construção industrializada. Num modelo que procura encurtar os prazos, os materiais têm de acompanhar o ritmo dos processos, sem comprometer a qualidade e a durabilidade dos edifícios.
A rapidez de cura e secagem, a simplificação da aplicação e a integração de diferentes funções num único produto são algumas das características que orientam o desenvolvimento de novas soluções. Esta abordagem procura também responder à escassez de mão de obra qualificada, reduzindo o número de operações necessárias e tornando os processos mais eficientes.
O responsável chamou ainda a atenção para os desafios técnicos colocados pelos novos suportes, frequentemente mais leves e deformáveis, e pela ligação entre sistemas modulares. A formação dos profissionais e a colaboração entre fabricantes, projetistas e construtores são igualmente essenciais para garantir uma aplicação adequada destas soluções. Nesse sentido, destacou o trabalho desenvolvido pela MAPEI Academy na formação e atração de novos profissionais.
A industrialização exige também uma visão integrada da logística. As dimensões dos componentes, as condições de transporte e a própria conceção dos produtos devem ser pensadas desde o início, para evitar que os ganhos obtidos em fábrica se percam durante a montagem em obra. A redução de desperdícios e do consumo de água e energia, bem como a utilização de materiais recicláveis, representam outras oportunidades para melhorar o desempenho ambiental da construção.
A arquitetura deve liderar a integração dos sistemas
A relação entre arquitetura e construção industrializada esteve no centro da apresentação de Rodrigo Vilas-Boas, Partner da OODA Architecture, que apresentou dois projetos, HOSO e HAVELAR, para ilustrar a forma como a arquitetura se está a adaptar aos novos métodos construtivos.
O responsável defendeu a necessidade de recuperar uma relação mais próxima entre arquitetos e indústria, recordando que a procura de soluções construtivas sempre fez parte do trabalho da arquitetura. A industrialização deve, por isso, ser integrada desde a conceção, e não surgir apenas numa fase posterior, como uma adaptação a sistemas previamente definidos.
Um dos exemplos apresentados foi uma residência de estudantes, concebida com uma configuração circular e centralizada para maximizar a circulação. A geometria representou um desafio adicional para a construção modular e industrializada, tendo o edifício combinado sistemas modulares com construção tradicional no núcleo central. Desenvolvido em colaboração com a Teixeira Duarte, o projeto constituiu também uma oportunidade de aprendizagem.
Para Rodrigo Vilas-Boas, a standardização não limita a expressão arquitetónica. Pelo contrário, permite libertar espaço para a criatividade e para a qualidade estética, como demonstra a forma circular e dinâmica do edifício.

Construção industrializada: ganhar escala sem comprometer a qualidade
A industrialização da construção está a ganhar espaço no debate sobre o futuro da habitação em Portugal, impulsionada pela necessidade de aumentar a oferta, responder à escassez de mão de obra e melhorar a produtividade do setor. Mas a transição dos métodos tradicionais para processos de produção em fábrica exige mais do que novas tecnologias e materiais. Requer confiança ao longo de toda a cadeia de valor, maior coordenação entre os diferentes intervenientes e uma mudança na forma como os projetos são concebidos e executados.
Para Gonçalo Martins, administrador da Perfisa, a construção industrializada pode contribuir para reforçar a confiança dos compradores e das entidades financiadoras. Ao reduzir riscos, aumentar o conforto e acelerar os prazos de construção, este modelo oferece vantagens que vão além da execução em obra e se estendem também ao financiamento dos projetos. Embora o acompanhamento das diferentes fases da construção tenha de ser feito de forma distinta, Martins considera que a industrialização pode proporcionar maior segurança aos financiadores. A experiência da Perfisa, pioneira na aplicação de sistemas de light steel framing, demonstra que a hesitação inicial perante métodos construtivos alternativos não é nova. Ainda assim, acredita que a industrialização permitirá ganhar escala, que considera o mecanismo mais eficaz para enfrentar os atuais preços da habitação. Sublinhou também a necessidade de olhar para o parque edificado existente, em grande parte envelhecido e sem condições adequadas de habitabilidade, defendendo programas urgentes de recuperação deste património.
A justificação económica da industrialização, contudo, não deve ficar limitada ao custo dos materiais ou dos processos construtivos. António Monteiro, membro da Direção da APPC, chamou a atenção para o fator tempo, que considera ser o verdadeiro motor económico desta transformação. Mesmo quando determinados materiais ou processos industriais apresentam custos superiores, a capacidade de reduzir os prazos de execução pode alterar significativamente a rentabilidade de um projeto.
No debate sobre a madeira e os sistemas construtivos leves, ficou evidente que a mudança exige ultrapassar resistências culturais, mas também resolver fragilidades estruturais da cadeia de abastecimento. Carlos Baião da Cruz, CEO da KOZOWOOD, apontou o paradoxo de procurar desenvolver uma indústria da construção em madeira sem uma indústria florestal devidamente articulada. Embora exista hoje maior sensibilidade à aplicação destes materiais, o bloqueio cultural continua presente. O setor segurador, em particular, mantém uma postura de reserva perante a madeira, sobretudo devido aos riscos de incêndio e inundação e ao desconhecimento das técnicas construtivas e dos revestimentos que permitem mitigar esses riscos.
Para além da perceção do mercado, a própria cadeia de valor enfrenta limitações concretas. Não há construção em madeira sem uma cadeia de fornecimento certificada, desde a serração até ao produto final. No entanto, a Península Ibérica não dispõe de capacidade de serração à escala necessária para assegurar uma oferta consistente de espécies locais, apesar da sua considerável área florestal. Para Baião da Cruz, a redução efetiva dos custos dependerá da existência de carteiras de projetos repetidas e consistentes ao longo do tempo, mas também de uma maior organização do setor em cluster, à semelhança do que acontece noutras indústrias, como a automóvel. A conclusão é clara: não haverá escala sem alinhamento entre os diferentes elos da cadeia de valor.
Do lado dos materiais tradicionais, a redução do IVA para 6% nas empreitadas de habitação ainda não se traduziu num aumento expressivo da atividade. Ávila e Sousa, diretor técnico do Grupo Preceram, explicou que não se verificou até agora um grande pico de construção, uma vez que a produtividade do setor não registou ainda a evolução necessária. É precisamente aqui que a industrialização poderá representar uma mudança. O responsável identificou também especificações técnicas que, por vezes, se revelam desadequadas ou difíceis de compatibilizar com a legislação em vigor, defendendo a revisão de determinados requisitos. A Preceram está, entretanto, a desenvolver uma plataforma digital inteligente que permitirá segmentar e combinar soluções construtivas de acordo com critérios económicos e técnicos, partindo da ideia de que escolher materiais é também uma decisão sobre o conforto e o bem-estar das famílias.
Para Nuno Fonseca, delegado da Zona Norte da SANJOSE Constructora, a industrialização deve assumir-se como um desígnio nacional, capaz de mobilizar e coordenar os diferentes intervenientes do setor. A relação com os clientes continua a ser complexa e a construção civil mantém uma estrutura rígida, com dificuldade em adaptar-se a novas iniciativas e modelos de produção. A articulação entre a construção em fábrica e a execução em obra exige, por isso, maior sistematização. Ainda assim, a escassez de mão de obra será um dos principais fatores de aceleração da penetração destes sistemas no mercado português. A transição coloca também desafios às empresas, num contexto em que a rentabilidade se encontra cada vez mais pressionada.
António Carreira, diretor comercial da KREAR, questionou a ideia de que a industrialização permitirá simplesmente reduzir as necessidades de mão de obra do empreiteiro geral. A mão de obra continuará a ser escassa e muito procurada, mas a industrialização permitirá construir mais com os recursos disponíveis. Do lado da procura, são sobretudo os promotores imobiliários que começam a procurar estas soluções. O problema é que cerca de 90% dos projetos continuam a ser concebidos segundo métodos construtivos tradicionais. Adaptar posteriormente um projeto à construção industrializada é um caminho mais difícil e menos rentável do que integrar estes princípios desde a fase inicial de conceção.
Esta questão trouxe para o centro do debate o papel da arquitetura. Bruno Marques, presidente do Conselho Diretivo Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos, defendeu que a industrialização deve começar no projeto de arquitetura e só depois ser partilhada com os restantes intervenientes da cadeia de valor. Caso contrário, existe o risco de deixar que modelos construtivos e catálogos de peças determinem a arquitetura, conduzindo à repetição de edifícios e soluções sem identidade própria. A standardização deve servir o projeto, e não substituí-lo. Um planeamento rigoroso é igualmente indispensável para antecipar os problemas que, de outra forma, só seriam identificados durante a execução da obra. Acima de tudo, a adequação do edifício aos seus usos deve continuar a ser a prioridade. Marques identificou ainda a construção em fábrica como uma oportunidade para atrair trabalhadores mais jovens e mais mulheres para o setor.
O debate deixou, assim, uma mensagem transversal: a industrialização não se fará apenas através da tecnologia ou da iniciativa isolada de algumas empresas. Exige uma estratégia coordenada, maior capacidade industrial, cadeias de abastecimento fiáveis, enquadramento regulamentar adequado e projetos concebidos de raiz para estes métodos construtivos. Como defendeu Bruno Marques, será necessário desafiar as práticas estabelecidas e assumir uma postura mais provocadora para encontrar respostas diferentes para o problema da habitação.
A agenda completa dos três dias está disponível online. Faça a sua inscrição gratuita no site da Semana da Reabilitação Urbana do Porto.