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Entrevista a Margarida Caldeira, Executive Board Director, Broadway Malyan

Entrevista a Margarida Caldeira, Executive Board Director, Broadway Malyan

Nome incontornável da arquitetura nacional e internacional, a Broadway Malyan conta com um portfólio ímpar. Não obstante o grande número de projetos, as diferentes escalas e localizações, consegue identificar uma obra que de alguma forma seja representativa do vosso trabalho?

O projeto World of Wine recentemente concluído em Vila Nova de Gaia é um projeto emblemático e representativo do nosso trabalho de várias formas. Em primeiro lugar, é um projeto magnífico e do qual estamos incrivelmente orgulhosos, que representa a motivação que reside em cada projeto (independentemente da sua escala ou setor) de criar lugares e espaços distintos que enriquecem a vida das pessoas. O World of Wine foi também um projeto extremamente complexo e, por isso mesmo, representa a capacidade de inovar e superar desafios, através do vasto conjunto de competências da nossa equipa em Portugal. Por último, destaco o legado – a Broadway Malyan é uma empresa verdadeiramente internacional com ateliers por todo o mundo, com os quais a nossa equipa de Lisboa tem fortes ligações, mas ainda assim nunca perdemos o nosso “coração português”. Poder, assim, fazer parte de um projeto que preza, protege e celebra esta fascinante parte da cultura e história de Portugal, criando um para as gerações futuras, é realmente especial para nós, e reflete a nossa herança de compromisso, na criação de soluções de design sustentável no nosso país.

World of Wine, em Vila Nova de Gaia.
World of Wine, em Vila Nova de Gaia.

World of Wine, em Vila Nova de Gaia.
World of Wine, em Vila Nova de Gaia.

Onde estão sedeados? Quais as áreas de especialização? E qual a dimensão da equipa?

Estamos sedeados num atelier localizado na Estação do Rossio, em Lisboa, que é a nossa casa desde que concluímos a sua requalificação, em 2008. Atualmente contamos com uma equipa de mais de 40 pessoas, com uma vasta gama de especialistas em vários setores e disciplinas. Desenvolvemos projetos em diversos setores, mas estamos particularmente ativos em escritórios, hotelaria, retail e masterplanning. Temos vindo também a consolidar um crescente portfólio residencial. A nossa equipa integra diversas disciplinas e valências, com arquitetos, arquitetos paisagistas, urbanistas e masterplanners, designers de interiores, artistas e designers gráficos.

Quais as principais características que marcam as vossas obras?

As principais características dos nossos projetos são a simplicidade, a funcionalidade e o lugar. Um ótimo design é, geralmente, um design simples. Acreditamos que os melhores projetos derivam de uma única grande ideia e, portanto, a nossa abordagem é focada em entender todo o contexto necessário, criando um design que reflita uma narrativa que possa ser compreendida. Associar forma e função é extremamente importante - um projeto nunca poderá ser um grande projeto se apenas aparentar sê-lo. Finalmente, e a meu ver o mais importante, é o lugar - nenhum projeto pode ser visto isoladamente. Ele será o próximo espaço numa malha complexa, devendo, portanto, responder às condicionantes existentes, mas sobretudo entender e dar resposta a como essa malha se irá desenvolver no futuro. Arquitetura e masterplanning, criam espaços para as pessoas, lugares que atraiam as pessoas, dando um contributo realmente positivo – é isso que define o nosso trabalho.

Cumprido um ano desde a chegada da Covid-19, como têm sentido o impacto da pandemia no mercado da arquitetura? E, especificamente, na prática do vosso atelier?

Tem havido um impacto indiscutível no setor imobiliário em geral, que inevitavelmente tem impacto na arquitetura. Do ponto de vista prático, o processo de decisão está mais demorado, o que neste momento torna tudo mais desafiante. Do ponto de vista do setor e do design, houve alguns impactos bastante claros da pandemia. Um setor em que víamos um crescimento significativo na pré-pandemia, que se tornou determinante, é o da hotelaria. É uma realidade, que no final da pandemia, haverá uma grande procura no setor da hotelaria e turismo, e estamos já a trabalhar com operadores independentes e algumas das maiores marcas do mundo, que procuram renovar a sua oferta ou criar nova capacidade de respostas às novas necessidades e aspirações. Assistimos também a um aumento do investimento no mercado residencial, nomeadamente no setor build to rent, reflexo do valor de aquisição dos imóveis, particularmente em Lisboa e Porto, mas também refletindo a natureza dinâmica da economia portuguesa e a probabilidade da população ganhar mais mobilidade após a pandemia.

Atualmente, quantos projetos têm em carteira (em que setores e em que localizações)? E quais as perspetivas ao nível de novas encomendas para este ano?

Neste momento temos cerca de duas dezenas de projetos em curso, entre projetos de arquitetura, de arquitetura de interiores e de urbanismo. Os setores principais de atividade neste momento são principalmente a Hotelaria – quer com remodelações de edifícios existente, quer com construção nova – e o Comércio, na remodelação de centros comerciais. Temos também vários projetos Residenciais em curso. Quanto à sua localização, em Portugal temos projetos um pouco por todo o país, sem que uma zona se destaque particularmente. No estrangeiro, temos projetos na Europa, no Médio Oriente e também no Brasil.

Olhando para o estado atual do mercado imobiliário e da construção, onde identificam o maior potencial de crescimento em Portugal?

Antes do surgimento da pandemia no início de 2020, Portugal vivia um crescimento realmente significativo, sendo um dos países da Europa atrativos para os investidores, e esperamos que esta tendência se mantenha após a pandemia. Portugal tem muito para oferecer, tanto em termos de lifestyle, como de qualidade da mão-de-obra, com jovens profissionais com boa formação, e acreditamos que continuaremos a estar sobre o olhar atento das grandes multinacionais, que incluem Portugal nas suas operações europeias. Tendo isto em conta, continua a existir uma enorme escassez de escritórios de qualidade, e ainda que o formato do local de trabalho evolua em um mundo pós-pandémico, continuará a haver procura de locais de trabalho de elevada qualidade que atendam às necessidades dos colaboradores em termos de flexibilidade, espaços verdes e tecnologia.

Nesta fase, o mercado continua muito voltado para a reabilitação e a regeneração urbana. A seu ver, qual é o papel do arquiteto nesse processo que, afinal, é uma prioridade a nível nacional?

O arquiteto ocupa um dos papéis mais importantes neste processo. Os arquitetos têm uma grande responsabilidade ambiental no que respeita à construção - os arquitetos reconhecem a história e o passado, e criam para o futuro. Isso não representa estagnação ou não evolução, mas sim o respeito pela memória, enquanto legado em cada projeto. O bom design engloba também a criação de valor social e, portanto, os arquitetos devem equacionar e enquadrar os impactos mais abrangentes de uma intervenção.

Outra questão-chave e que é cada vez mais incontornável é a sustentabilidade do edificado, não só do ponto de vista energético, mas também ambiental e social. Como é que a arquitetura deve contribuir para este desígnio?

A contribuição da Arquitetura para a sustentabilidade num projeto deve ser, sem dúvida, a mais importante. Se esta não for o centro das atenções do cliente, cabe ao arquiteto o desafio de mudar a situação. O arquiteto é apenas um dos elementos de um processo, que deve se considerado em qualquer projeto de sucesso. O arquiteto deve trabalhar em parceria com o cliente, consultores e empreiteiros, por forma a garantir a agenda de sustentabilidade. Isso manifesta-se na sua abordagem ao design, incorporando medidas ativas e passivas, mas é muito mais do que isso. O arquiteto deverá incorporar uma visão de longo prazo, e garantir a sustentabilidade ao longo do ciclo de vida do seu projeto.

Isso significa abordar cada projeto com um objetivo de zero emissões de carbono, em vez de tentar minimizar a sua pegada ecológica. O design sustentável é um estado de espírito tanto quanto uma abordagem arquitetónica - criar novos edifícios continuará a ser uma parte importante do nosso futuro, mas nunca devemos esquecer que o edifício mais sustentável é aquele que já se encontra construído.

Quando prescreve os materiais de construção, que características tem em consideração?

A escolha de materiais de construção passa por um conjunto de fatores básicos, como sejam a sua qualidade e adequabilidade ao uso, o custo, a sua aparência estética, a durabilidade e as necessidades de manutenção, assim como aspetos ligados à sustentabilidade do material, como o seu impacte no ambiente no fabrico, no transporte, na montagem e na futura demolição. Damos também preferência a produtos portugueses, como forma de contribuir para a economia nacional. A escolha dos materiais, em cada caso, resulta assim do equilíbrio certo entre todos estes fatores.

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