Os finalistas do Prémio Jovens Arquitectos 2026, apresentaram projetos que refletem diferentes abordagens à intervenção arquitetónica.
O primeiro projeto, de Gonçalo Pereira e Inês Cruz, denomina-se “Casa no Carvalhal”, que propõe uma habitação privada localizada num condomínio na Comporta. Distingue-se “por evitar a tipologia dominante da região — marcada pelas coberturas inclinadas — optando antes por uma solução formal mais abstrata e unitária”. O pátio interior assume-se como elemento estruturante da casa, “integrando a água como instrumento climático e espacial que contribui para a vivência quotidiana do espaço,” sem carácter meramente decorativo. Segundo os autores, “trata-se de um projeto contido nos meios, preciso na forma e pensado para durar.”
O projeto “(re)cortes – tecto, paredes e pilar”, do arquiteto Filipe Paixão, explora a ideia do recorte enquanto estratégia de transformação arquitetónica. A proposta insere-se numa investigação que adapta práticas inspiradas em Gordon Matta-Clark à transformação de estruturas existentes em cenários domésticos. O recorte surge assim como ferramenta conceptual e física — “factual quando possível, simulado quando necessário” — para reinterpretar o espaço construído.
Da autoria de Less Almeida e Eduardo Arnau, do há.atelier, o CIC – Centro Interpretativo do Cereal nasce de uma leitura do território marcada pela presença histórica da água e pela atividade da moagem. O projeto propõe recuperar antigos moinhos de água enquanto elementos estruturantes da memória coletiva e da identidade local, transformando-os em catalisadores de vida social, cultural e económica. A água percorre o projeto como dispositivo espacial e funcional, reativando a sua função original de força motriz e ampliando-a para uma dimensão pedagógica, ambiental e simbólica.
O projeto “Novo Pólo do Colégio Ribadouro”, de Sofia Passos Santos, propõe a ampliação de um equipamento escolar existente na cidade do Porto. A intervenção desenvolve-se através da ocupação transversal do quarteirão, incluindo a reconstrução de um edifício originalmente destinado a habitação e a reabilitação de duas frações existentes. O novo polo escolar introduz um programa educativo num tecido urbano predominantemente habitacional, respeitando a cércea, a volumetria e a escala do edificado preexistente, ao mesmo tempo que cria um novo acesso principal pela Rua das Doze Casas.
Em representação do júri, Simão Botelho destacou a elevada qualidade das propostas apresentadas, considerando que os projetos “demonstram vitalidade na arquitetura portuguesa e revelam o potencial das novas gerações de arquitetos”.
A menção honrosa/3.º lugar foi então entregue ao projeto Casa no Carvalhal, do Ateliê de Santa Bárbara; o 2.º lugar ao projeto “(re)cortes”, do Corpo Atelier; e o 1.º lugar ao CIC – Centro Interpretativo do Cereal, do há.atelier e ao novo Pólo do Colégio Ribadouro, do SO-STUDIO.
Arquitetura como responsabilidade social e política
Na abertura da sessão, Paula Torgal, Vice-Presidente do Conselho Diretivo Nacional da Ordem dos Arquitectos, sublinhou que a arquitetura se insere hoje “num contexto particularmente complexo e paradoxal.”
Segundo a responsável, Portugal enfrenta atualmente uma realidade marcada pela pressão do turismo, pelo deslocamento de comunidades para a periferia e pela dificuldade de acesso à habitação por parte de famílias e jovens. A este cenário junta-se ainda um mercado especulativo e um quadro legislativo muitas vezes contraditório.
Neste contexto, ao questionar “o que significa ser jovem arquiteto hoje?” referiu que, ser arquiteto, implica “experimentar novas perceções e interpretações da cidade, antecipando novas formas de habitar e novos modelos de prática profissional”. Essa missão exige não apenas capacidade técnica, mas também consciência ecológica e atualização constante.
“Fazer arquitetura é também uma afirmação política”, afirmou, defendendo que cabe aos profissionais refletir sobre o presente e o futuro das cidades, da paisagem e da reabilitação urbana, áreas que considera pilares urgentes de intervenção cultural e de responsabilidade coletiva.
A responsável destacou ainda que a arquitetura deve contribuir para regenerar não apenas os edifícios, mas também a confiança nas instituições, nos projetos e na arquitetura enquanto serviço público.
