Especialistas destacaram o papel de toda a cadeia de valor — do projeto à utilização do edifício — para alcançar as metas climáticas europeias até 2050.A sessão contou com intervenções de Manuel Pinheiro, professor catedrático do Instituto Superior Técnico – Universidade de Lisboa, Vítor Vermelhudo, da Secil, Fábio Cordeiro Ferreira, da NOS, e Hugo Jorge, da LG Electronics, além da abertura institucional de Vítor Amaral, presidente da APEGAC.
Na abertura da sessão, Vítor Amaral destacou o papel dos administradores de condomínio na concretização dos objetivos climáticos no setor imobiliário. “A descarbonização começa no papel e termina com a vida útil do edifício, e é precisamente nessa fase que a administração profissional de condomínios está inserida nesta fileira da construção”, afirmou.
O responsável defendeu que os administradores têm um papel relevante na gestão e manutenção dos edifícios, contribuindo para processos de reabilitação, eficiência energética e redução de emissões. “Na descarbonização, manutenção ou reabilitação, o administrador de condomínio tem um papel importante, e por isso queremos ser um parceiro na fileira da construção e do imobiliário”, sublinhou.
O desafio europeu: edifícios neutros em carbono até 2050
Na sua intervenção, Manuel Pinheiro abordou o enquadramento europeu da descarbonização do edificado e a urgência de acelerar a transição energética.
Segundo o especialista, o setor dos edifícios tem um peso muito significativo no consumo energético e nas emissões. “O edificado consome cerca de 30% da energia, podendo chegar a 35% nas zonas urbanas”, referiu, acrescentando que, quando se contabilizam os consumos de bens e as emissões incorporadas, os edifícios podem representar até 80% das emissões de gases com efeito de estufa.
Essas emissões estão diretamente associadas às alterações climáticas, o que torna essencial acelerar a transição. “Temos de reduzir as emissões e descarbonizar. Ao não descarbonizar estamos a manter níveis de carbono relativamente elevados”, alertou.
Para atingir os objetivos climáticos, explicou, será necessário combinar políticas públicas ambiciosas, financiamento e transformação do parque edificado. “Esta década é fundamental para assegurar o objetivo de emissões zero em 2050”, afirmou, destacando que a transição implica tanto a adaptação de edifícios existentes como novas construções com técnicas de mitigação eficazes.
O objetivo final passa por edifícios com emissões quase nulas e, progressivamente, por construções com emissões líquidas zero ao longo de todo o ciclo de vida.
Materiais de baixo carbono e o papel da indústria do cimento
A descarbonização da construção passa também pela inovação nos materiais. Foi essa a mensagem deixada por Vítor Vermelhudo, da Secil, que apresentou o trabalho desenvolvido pela empresa para reduzir a pegada carbónica dos produtos utilizados na construção.
“Queremos ser conhecidos como uma empresa sustentável, comprometida com a neutralidade carbónica até 2050”, afirmou.
O responsável destacou que a indústria cimenteira continua a ser essencial para a economia e para o desenvolvimento de infraestruturas. “O cimento é indispensável para a produção de betão, sendo este o segundo bem mais consumido do mundo, a seguir à água”, recordou.
Ainda assim, o setor enfrenta um desafio significativo: cerca de dois terços das emissões da indústria cimenteira resultam da produção de clínquer.
Para responder a este desafio, a estratégia da empresa passa por apostar em economia circular, materiais de baixo carbono e tecnologias mais limpas. A abordagem é sintetizada nos chamados “5 C’s”: clínquer, cimento, betão, construção e (re)carbonização.
O objetivo é contribuir para o desenvolvimento de green buildings, ou seja, edifícios concebidos para minimizar o impacto ambiental ao longo de todo o ciclo de vida, através da eficiência energética, gestão hídrica e utilização de materiais sustentáveis.
Casas inteligentes para reduzir desperdícios energéticos
A digitalização e os dados também podem desempenhar um papel determinante na descarbonização do edificado. Foi essa a visão apresentada por Fábio Cordeiro Ferreira, responsável de produto da NOS.
O especialista lembrou que 87% do tempo das pessoas é passado em espaços interiores, seja em casa ou no local de trabalho, o que reforça a importância de tornar os edifícios mais inteligentes e eficientes.
Segundo explicou, uma casa inteligente deve assentar em três pilares: segurança, safety e automação. Isso inclui desde deteção de incêndios ou fugas de água até ao controlo automático de iluminação, estores e climatização.
“A segurança deve atuar em conjunto com a automação para proteger pessoas e ativos”, explicou.
A integração entre sistemas é fundamental para maximizar os benefícios. Por exemplo, um sistema inteligente pode desligar automaticamente o ar condicionado se detetar um incêndio ou alertar o utilizador caso o sistema de segurança seja ativado enquanto o ar condicionado permanece ligado.
O uso de dados em tempo real permite identificar desperdícios energéticos e otimizar consumos. “As casas inteligentes geram centenas de eventos por dia e conseguem detetar padrões ou incongruências”, afirmou.
A inteligência artificial tem também um papel crescente nesse processo, permitindo analisar padrões de consumo e promover uma otimização contínua sem intervenção humana.
Eficiência energética nos equipamentos domésticos
A redução de emissões passa igualmente pelos equipamentos utilizados nas habitações. Foi essa a perspetiva apresentada por Hugo Jorge, da LG Electronics.
A empresa aposta em soluções que combinam eficiência energética, inovação tecnológica e sustentabilidade, abrangendo equipamentos de cozinha, soluções para o lar e sistemas de climatização.
No campo da sustentabilidade, a empresa definiu como objetivo alcançar a neutralidade carbónica, ao mesmo tempo que reforça a circularidade através da incorporação de resíduos eletrónicos e materiais recicláveis nos seus produtos.
Um dos exemplos apresentados foi a plataforma ThinQ, que permite controlar e gerir os eletrodomésticos de forma inteligente. A tecnologia aprende com a rotina dos utilizadores, permite operação personalizada e ajuda a reduzir o consumo energético.
Entre as funcionalidades estão alertas de manutenção, gestão de energia e adaptação automática dos equipamentos a períodos de menor atividade, contribuindo para uma utilização mais eficiente dos recursos.