O segundo dia da Semana da Reabilitação Urbana (SRU) colocou no centro da discussão os custos de construção. Os oradores defenderam maior rigor na conceção, digitalização dos processos e para controlar encargos para garantir a habitação digna.
Custos de construção
José Manuel Sousa, Bastonário da Ordem dos Engenheiros Técnicos, sublinhou que o aumento dos custos é um problema de dimensão europeia. “Quando construir se torna caro, torna-se também mais difícil construir o necessário”, afirmou, defendendo uma abordagem integrada que reconheça a habitação como bem essencial.

O responsável destacou que a resposta não passa por reduzir exigências técnicas na habitação de custos controlados. “Toda a gente tem o direito a uma habitação digna”, reforçou, acrescentando que o controlo de custos começa na fase de projeto: “Tudo o que não pensarmos na fase do projeto, alguém vai pagar”. Para o bastonário, planeamento, competência técnica e valorização da engenharia são determinantes para evitar improvisos e sobrecustos.
"Decisões mal preparadas nesta fase geram custos adicionais em obra”
Também Jorge Nandin de Carvalho, presidente da APPC, defendeu que a gestão de projeto é decisiva na otimização dos custos. “A otimização começa na conceção. Decisões mal preparadas nesta fase geram custos adicionais em obra”, afirmou.
O responsável alertou ainda para a confusão semântica existente em Portugal entre “gestão de projeto” e “gestão de empreendimento”, sublinhando que clarificar funções é essencial para evitar conflitos, atrasos e derrapagens orçamentais. Nesse âmbito, destacou o desenvolvimento do SINQAE, sistema que visa classificar empresas de arquitetura e engenharia com base em critérios objetivos de experiência, especialização e estrutura, promovendo maior previsibilidade e confiança no mercado.

Recordando exemplos como a Expo’98 e o Euro 2004, apontados como casos de sucesso na entrega de infraestruturas dentro dos prazos e orçamentos, o dirigente defendeu que liderança técnica rigorosa e modelos de gestão claros são fatores críticos para o sucesso.
BIM
A digitalização esteve igualmente em destaque com a intervenção de Rui Gavina, docente do ISEP, que abordou o BIM enquanto infraestrutura de dados do edificado. O especialista sublinhou que o BIM vai além do modelo tridimensional visível, sendo sobretudo um sistema de gestão de informação.

Com o enquadramento regulamentar já definido e a estratégia “Portugal BIM” aprovada em 2025, o desafio passa agora por estruturar dados de forma normalizada e interoperável. Segundo o docente, a digitalização permite reduzir retrabalho, conflitos e o tempo gasto na procura de informação — atualmente estimado em cerca de 35% do tempo de trabalho não produtivo.
“O planeamento exige dados sólidos e estruturados”, concluiu.
Soluções construtivas industrializadas
A construção industrializada foi apresentada como uma das principais linhas de transformação do setor por José Rui Pinto, Diretor Técnico-Comercial da KREAR. O responsável identificou três pilares fundamentais: mudança de mentalidade, definição de processos simples e evolutivos e planeamento rigoroso.

A lógica passa por um processo colaborativo que envolve todos os intervenientes — dono de obra, projetistas, empreiteiros e fornecedores — desde a fase inicial. A produção em fábrica, o controlo logístico e a antecipação de riscos permitem reduzir desperdícios e aumentar previsibilidade.
O responsável destacou ainda exemplos práticos, incluindo o primeiro hospital industrializado desenvolvido em Portugal, defendendo que a industrialização é já uma realidade em residências universitárias, hotéis e equipamentos de saúde.
“Sem isolamento não há conforto”
A sessão dedicada à inovação nos materiais contou com a intervenção de Ávila e Sousa, Diretor Técnico do Grupo Preceram, que deixou uma mensagem clara: “Sem isolamento não há conforto”.

Para o responsável, a discussão não deve centrar-se apenas no custo unitário dos materiais, mas na forma como as soluções são integradas em obra. A aposta passa por sistemas construtivos completos que assegurem desempenho térmico e acústico, contribuindo para a saúde, bem-estar e redução dos consumos energéticos.
Entre as soluções destacadas esteve a lã mineral da Volcalis, caracterizada por menor densidade e facilidade de transporte e instalação, bem como sistemas de isolamento que permitem ocupar menos espaço mantendo a eficiência. A inovação nos materiais, defendeu, constitui uma resposta estruturada aos desafios atuais.
É necessário reforçar competências no setor
A sessão terminou com uma mesa-redonda que reuniu Jorge Nandin de Carvalho (APPC), José Rui Pinto (KREAR) e João Botelho, Diretor Executivo da CONSTRU.

Os oradores convergiram na necessidade de reforçar competências no setor. Flexibilidade, mentalidade aberta, capacidade de gestão e qualificação técnica foram apontadas como essenciais para acelerar a transformação da construção.