Os custos de construção continuam a subir em Portugal, pressionados pela escassez de mão de obra, pelo preço dos materiais e pela capacidade limitada do setor para executar obras.
Para Jorge Nandin de Carvalho, presidente da Associação Portuguesa de Projectistas e Consultores (APPC), a tendência de aumento dos custos está diretamente relacionada com a capacidade de resposta do mercado. “Os custos de construção têm estado sempre a subir e isso tem a ver com a capacidade que o mercado tem para executar as obras”, afirmou.
Industrialização pode reduzir custos e prazos
Entre as soluções apontadas está a industrialização da construção, que permite otimizar processos e reduzir incertezas. Segundo José Rui Pinto, diretor técnico-comercial da KREAR, os benefícios são evidentes sobretudo em duas dimensões: tempo e previsibilidade financeira.
“As grandes vantagens no imediato são o prazo e a previsibilidade de custos”, referiu, destacando que os métodos industrializados permitem planear e executar projetos com maior controlo.
Também João Botelho, diretor executivo da CONSTRU, sublinhou que a industrialização está diretamente ligada à gestão do risco e da incerteza no setor.“Quanto mais industrializarmos as soluções e as associarmos aos nossos projetos, maior é o grau de certeza e maior a probabilidade de redução de custos”, explicou. Segundo o responsável, processos mais industrializados tornam o planeamento mais sequencial e reduzem o risco de derrapagens nos prazos.
A padronização de elementos construtivos permite também melhorar a qualidade do produto final e reduzir desvios entre o orçamento inicial e o custo real da obra.
Código atual dificulta soluções mais rápidas
Apesar das vantagens, os participantes no debate alertaram para desafios específicos no caso das obras públicas. De acordo com Jorge Nandin de Carvalho, o enquadramento atual do Código dos Contratos Públicos limita a flexibilidade necessária para integrar soluções industrializadas.
Em Portugal, explicou, existem essencialmente duas formas de lançar obras públicas: com projeto de execução completo ou através de modelos de conceção de construção. Falta, segundo o responsável, uma solução intermédia baseada em anteprojetos, que permitiria às empresas adaptar o projeto às suas soluções construtivas, potencialmente mais rápidas e económicas.
Digitalização é a base para a industrialização
Para José Rui Pinto, a transformação do setor depende também da incorporação de tecnologia. “Não há industrialização sem digitalização”, afirmou, destacando a importância das ferramentas digitais para planear, coordenar e otimizar processos construtivos.
Mais colaboração desde a fase de conceção
Segundo João Botelho, a conceção é atualmente uma das fases mais desafiadoras, devido ao elevado número de variáveis envolvidas.
Para o responsável, é essencial envolver os diferentes intervenientes desde o início e abandonar o modelo tradicional, fragmentado e reativo. “O que traz mais valor é a capacidade de integrar os intervenientes o mais cedo possível e tomar decisões ainda na fase de conceção”, afirmou.
Caso contrário, alertou, os problemas que surgem mais tarde na execução tendem a tornar-se significativamente mais caros de resolver.