O setor imobiliário é um dos principais emissores de gases com efeitos de estufa, e por isso tem um papel fundamental na descarbonização da economia, que vai muito além dos consumos energéticos: “o verdadeiro desafio está também nos materiais”.
Nelson Lage, presidente do Conselho de Administração da ADENE, esteve presente na Semana da Reabilitação Urbana de Lisboa, abrindo a sessão “O contributo dos materiais eficientes a caminho do carbono zero”, onde alertou que “quando falamos de carbono zero e das novas diretivas, os materiais são extremamente importantes, porque se emite muito carbono antes de começar a consumir energia nos edifícios. Ele está nos vidros, nos isolamentos, nos transportes. E, felizmente, vivemos uma verdadeira resolução nos materiais, que fazem parte da solução”. Assim, “o maior desafio do setor não é só construir mais rápido, é também construir melhor e de forma mais responsável”.
Rui Fragoso, diretor na Direção de Edifícios e Eficiência de Recursos da ADENE, fez um breve enquadramento da nova diretiva europeia para a eficiência energética dos edifícios, cujo processo de transposição para a lei portuguesa está a decorrer. Traz também novidades para a indústria dos materiais, numa altura em que “cada vez mais os critérios de ESG e do financiamento verde assentam na temática do carbono”. Para já, “há incertezas sobre os custos e as abordagens futuras, mas o mercado vai evoluir no sentido de uma maior diferenciação e resiliência nos projetos”.
A sustentabilidade está “no centro da atividade” da Reynaers Aluminium, que assumiu o compromisso de baixar a sua pegada carbónica em 50% relativamente aos valores de 2019, principalmente na componente da energia. Na conferência, Pedro Santos, diretor técnico da empresa, partilhou um pouco da visão da Reynaers Aluminium sobre este tema, e apresentou o caso de estudo da nova sede da Caixa Geral de Depósitos, onde já foi incorporado um sistema de etiquetagem de materiais com passaportes de produto para rastrear os componentes das janelas do edifício, uma ajuda na gestão e manutenção dos imóveis ao longo de todo o seu tempo de vida.
Já Vasco Pereira, coordenador de Suporte Técnico e formação da Saint-Gobain, destacou que a empresa assume a responsabilidade “de tornar o mundo num lugar melhor para vivermos”, e a construção leve tem um papel nisso. “As nossas soluções são muito transversais, não só o vidro, mas também coberturas, betonilhas, tubagens, sistemas de fachadas ligeiras e tetos falsos e acústicos, entre outros. A Saint-Gobain já conseguiu reduzir em cerca de 34% a sua pegada carbónica desde 2017, reduzindo o consumo de matérias-primas virgens, reutilizando e reciclando mais materiais e diminuindo o consumo de água".
Mercado ainda precisa de incentivos para o "salto" inicial
Num debate sobre o tema, moderado por João Ferreira Gomes, presidente da ANFAJE, ficou claro que ainda há um longo caminho a fazer para tornar as soluções construtivas mais eficientes, mas os passos estão a ser dados na direção certa.
A uniformização de critérios é um dos pontos essenciais para este efeito. Cátia Brito, Gestora de equipa na Direção de Edifícios e Eficiência de Recursos da ADENE, defendeu que “precisamos de mecanismos de uniformização de metodologias de cálculo para criar soluções entre os materiais. Quando estiverem disseminados, será mais fácil” escolher e comparar os vários materiais. Regulação, acredita, não falta, mas talvez deva ser mais faseada. “O mercado responde muito bem à previsibilidade, e no caso do carbono, é importante que as métricas sejam compreensíveis, mensuráveis e passíveis de serem colocadas em prática pelos técnicos. Ter um indicador de carbono no certificado energético vai incentivar a procura pelos melhores materiais, aproximar a oferta dos materiais zero carbono e acelerar o retorno do investimento”.
José Pedro Pinto, CEO do Grupo Himo, concorda que “a realidade [construtiva] ainda assenta nos materiais, que têm uma grande responsabilidade a esse nível, e talvez o seu impacto possa ser mais rápido” na descarbonização. “Do ponto de vista tecnológico e do projeto, o mercado está preparado, mas acho que falta algum investimento, e incentivos fiscais seriam importantes a esse nível”. Segundo o responsável, para quem constrói, e se tiver uma perspetiva de curto prazo (como a venda), “é difícil optar por materiais que cumpram estes critérios de sustentabilidade, porque são mais caros. Mas é diferente para quem vai gerir a longo prazo”.
Luis Sykes, Key Account Manager da Schneider Electric, adiantou neste debate que a integração da energia renovável é um dos pilares de descarbonização dos edifícios, e também defendeu a criação de uma base de dados e monitorização “que sirva para tomar decisões críticas”. Mas ressalvou que 85% do edificado português terá de ser reabilitado para cumprir as metas europeias estabelecidas, e não tem dúvidas de que “não estamos preparados, e os prazos começam a ser apertados. Muitas vezes, as dificuldades estão do lado dos decisores, podem ser culturais ou mesmo geracionais”.
Também os equipamentos têm o seu papel durante a utilização do edifício, nomeadamente no consumo de energia. A Bosch defende “uma perspetiva holística e transversal”. João Afonso dos Santos, CEO da BSH Eletrodomésticos, destaca que “a tecnologia permite configurar e controlar as utilizações dos equipamentos, e também já conseguimos reduzir emissões em todo o grupo”. Para já, “é preciso continuar a educar para a tecnologia existente e para as vantagens da substituição dos equipamentos”.