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Build to Rent ganha espaço no debate sobre a habitação em Portugal



                      Build to Rent ganha espaço no debate sobre a habitação em Portugal
Fotografia: Debate Build to Rent, SRU

O tema esteve em destaque numa sessão na Semana da Reabilitação Urbana, onde representantes do setor imobiliário e da construção defenderam que o modelo pode ajudar a aumentar a oferta de casas para arrendar e a responder às dificuldades das famílias.

Na abertura da sessão, Patrícia Barão, presidente da APEMIP, sublinhou que o arrendamento deixou de ser apenas um tema técnico para passar a estar ligado ao desenvolvimento económico e social das cidades.

“Hoje falamos de cidades e de pessoas. O arrendamento é coesão social, produtividade e futuro”, afirmou.

Segundo a responsável, não haverá sustentabilidade no mercado habitacional sem uma oferta suficiente de casas para arrendar a preços que as famílias portuguesas consigam suportar.

Portugal continua a ser um país maioritariamente de proprietários. Cerca de 73% dos portugueses vivem em casa própria, um valor superior à média europeia. Ainda assim, o aumento dos preços da habitação e das rendas deve “levar a uma nova reflexão sobre o papel do arrendamento”.

De acordo com Patrícia Barão, este modelo torna-se particularmente relevante para jovens que procuram mobilidade e flexibilidade, mas também para famílias que enfrentam dificuldades para pagar rendas cada vez mais elevadas.

Nas zonas centrais de Lisboa, por exemplo, as rendas médias já atingem cerca de 1.800 euros, refletindo a forte pressão sobre o mercado.

O modelo Build to Rent surge precisamente como uma forma de aumentar o stock de habitação para arrendamento, através de projetos pensados desde o início para esse fim e geridos de forma profissional.

Segundo a presidente da APEMIP, este modelo pode contribuir para criar maior estabilidade no mercado e melhorar a qualidade do serviço prestado aos inquilinos.

“É uma proposta pensada de raiz para o arrendamento, com operação profissional e com capacidade para aumentar a oferta de casas”, explicou.

No entanto, alertou que o modelo depende da viabilidade económica dos projetos. Se os custos do solo, da construção e do financiamento não permitirem fechar as contas, os promotores tendem a regressar ao tradicional Build to Sell, orientado para a venda de habitação.

Para que o modelo funcione em Portugal, o setor identifica três fatores fundamentais: estabilidade regulatória, capacidade de execução e confiança no mercado.

A integração da habitação para arrendamento nos instrumentos de planeamento municipal é também apontada como uma peça chave para aumentar a escala do modelo.

Experiências internacionais demonstram esse potencial. Países como o Reino Unido têm um mercado de Build to Rent já consolidado, enquanto cidades como Madrid conseguiram expandir rapidamente este tipo de projetos.

Em Portugal, e mais especificamente no Porto, estima-se que existam cerca de 14 mil casas em pipeline para arrendamento, das quais aproximadamente 6 mil já foram entregues.

“Precisamos de mais casas, ação, confiança, e mais escala para fazer diferente”, concluiu a responsável.

Comparação com outros países evidencia diferença de escala

Durante a sessão, especialistas da consultora Savills analisaram a evolução do modelo na Europa e compararam os mercados português e espanhol.

Para Mariana Represas, Capital Markets Associate Director da Savills, o mercado português ainda tem uma dimensão reduzida. No entanto, o comparou-se a nossa realidade com o mercado espanhol, de forma a tentar fazer-se um paralelismo.

Já Sergio Sanz González, Associate Director, Residential & Alternatives Capital Market, destacou a diferença de escala na construção habitacional entre os dois países.

Segundo o responsável, Espanha constrói cerca de 700 mil casas por ano, enquanto Portugal apresenta uma capacidade muito inferior.

Apesar disso, a comparação entre as capitais revela uma particularidade: os valores de arrendamento em Lisboa são semelhantes aos de Madrid, embora os preços de venda sejam mais elevados na capital portuguesa.

Construção industrializada pode acelerar o modelo

Outra das soluções apontadas para viabilizar projetos Build to Rent passa pela industrialização da construção.

De acordo com Gonçalo Vitorino, engenheiro da ECOCIAF, a construção tradicional tem dificuldade em responder à necessidade de produzir habitação acessível de forma rápida e em grande escala.

A pré-fabricação e a produção de componentes em ambiente fabril permitem reduzir custos, diminuir desperdícios e acelerar prazos de construção, explicou.

“O que precisamos é de construir com preços controlados, qualidade e em prazos curtos. A industrialização da construção pode ajudar a resolver essa equação”, afirmou.

Os sistemas industriais de construção podem também trazer benefícios ao nível da sustentabilidade. Segundo o especialista, estes processos permitem incorporar até 20% de materiais reciclados e alcançar certificações energéticas elevadas, como A+.

Além disso, o trabalho em ambiente fabril pode ajudar a responder à escassez de mão de obra no setor da construção.

Para os intervenientes no debate, a resposta à crise da habitação exige uma mudança estrutural no setor, que combine novos modelos de investimento, inovação na construção.

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