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Arquitetura enfrenta novos desafios



                      Arquitetura enfrenta novos desafios
Fotografia: VI

No âmbito do último dia da SRU Lisboa 2026, integrada na iniciativa Prémio Jovens Arquitectos, especialistas do setor reuniram-se numa mesa-redonda para discutir os desafios e oportunidades que a arquitetura enfrenta hoje, sobretudo para as novas gerações. O debate contou com a participação de Paula Torgal, Vice-Presidente do Conselho Diretivo Nacional da Ordem dos Arquitectos, Tiago Ilharco, Co-founder & Managing Partner da NCREP, Miguel Duarte, Specification Manager da MAPEI, e Sofia Paradela, Júri do Prémio Jovens Arquitectos, sob moderação de Paulo Durão.

Novas gerações - desafios e oportunidades

Para Paula Torgal, vice-presidente do Conselho Diretivo Nacional da Ordem dos Arquitectos, o contexto atual da profissão é exigente para todas as gerações, ainda que apresente novas oportunidades.

A arquiteta recordou que iniciou a carreira num período em que conseguiu conciliar os estudos com o trabalho em ateliê, experiência que considera ter sido uma vantagem decisiva para entrar no mercado de trabalho já com experiência prática. Hoje, afirmou, esse percurso tornou-se mais difícil para muitos jovens.

Apesar disso, sublinhou que a profissão exige capacidade de adaptação. Na sua perspetiva, os arquitetos mais jovens dispõem agora de novas ferramentas que representam simultaneamente desafios e oportunidades.

“A história é cíclica”, afirmou, defendendo que as novas gerações devem aproveitar as oportunidades e trabalhar sobre elas.

O papel da criatividade

Já Tiago Ilharco destacou que a arquitetura enfrenta hoje múltiplos desafios, desde a constante alteração da regulamentação até à crescente complexidade dos projetos. Segundo explicou, a concretização de intervenções urbanas exige frequentemente equipas multidisciplinares que integram arqueólogos, engenheiros e outros especialistas.

Outro tema incontornável é a inteligência artificial. Para o responsável da NCREP, trata-se simultaneamente de um desafio e de uma grande oportunidade. No entanto, alertou que estas ferramentas não podem substituir a essência da arquitetura: a criatividade do projeto.

O especialista destacou ainda a importância da literacia económica no exercício da profissão. Com o aumento do custo da construção, considera fundamental que arquitetos e engenheiros tenham capacidade para estimar valores e compreender a viabilidade financeira dos projetos que desenvolvem.

Arquitetos jovens como “lutadores”

Na perspetiva de Sofia Paradela, os profissionais mais jovens enfrentam hoje problemáticas mais complexas do que as gerações anteriores.

Enquanto jurada do prémio, explicou que o objetivo foi distinguir projetos capazes de responder a essas dificuldades através de soluções inovadoras. “Em todas as obras premiadas há sempre aquele ‘algo a mais’”, referiu.

Para a arquiteta, a nova geração pode ser vista como uma geração de “lutadores”, capaz de transformar dificuldades em possibilidades e de encontrar novas respostas para os desafios urbanos contemporâneos.

A indústria como na arquitetura

Do ponto de vista da indústria, Miguel Duarte sublinhou que o setor funciona como um catalisador para a criatividade dos arquitetos.

Segundo explicou, ideias inovadoras só se concretizam quando existe viabilidade técnica e soluções construtivas que permitam transformar o desenho em obra. Nesse sentido, empresas como a MAPEI têm um papel relevante ao fornecer não apenas produtos, mas sistemas construtivos completos.

O responsável destacou ainda que a relação entre indústria, arquitetura e jovens arquitetos é circular: os arquitetos desafiam a indústria com novas ideias e necessidades, enquanto esta desenvolve soluções que permitem materializar essas visões.

Na reabilitação urbana, acrescentou, cada edifício representa um desafio único. Os jovens arquitetos revelam frequentemente uma sensibilidade particular para o património, cabendo à indústria fornecer as ferramentas técnicas que sustentam os projetos e permitem “manter a história enquanto se projeta o futuro”.

Sustentabilidade, habitação e reabilitação urbana

Durante o debate, Tiago Ilharco voltou a salientar a sustentabilidade como uma das principais preocupações da arquitetura contemporânea. A escolha responsável de materiais e a definição adequada das intervenções em edifícios existentes são, na sua opinião, fundamentais.

Neste contexto, a reabilitação urbana assume um papel central, tanto pela preservação do património como pelo seu contributo para práticas mais sustentáveis.

O especialista referiu ainda os desafios sociais ligados à habitação, defendendo que arquitetos, engenheiros e promotores devem trabalhar em conjunto para criar projetos capazes de responder a diferentes necessidades e níveis de preço.

Simplificação administrativa e novas formas de habitar

Na vertente institucional, Paula Torgal destacou a necessidade de simplificar processos administrativos no setor da construção.

A responsável referiu a expectativa de que o programa Simplex venha a introduzir mudanças concretas. Entre outras prioridades, apontou ainda como mais valia um código da construção, que facilite entrega de projetos com uma plataforma única e referiu ainda a importância de promover novas formas de habitar.

Qualidade da construção e acesso a oportunidades

Para Miguel Duarte, além da sustentabilidade, um dos desafios críticos do setor é a escassez de mão de obra especializada. Esta realidade pode comprometer a qualidade da execução das obras, tornando cada vez mais relevantes soluções de mecanização e sistemas que ajudem a controlar o processo construtivo.

Por sua vez, Sofia Paradela chamou a atenção para as dificuldades que os jovens arquitetos enfrentam no acesso a projetos de maior escala, particularmente no âmbito das obras públicas.

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